Dado Dolabella: os bastidores reais dos escândalos do passado

Dado Dolabella: os bastidores reais dos escândalos do passado

Novembro de 2003 nos estúdios da MTV Brasil em São Paulo. Dado Dolabella caminha em direção à mesa de João Gordo carregando uma maleta preta de metal. O público que assistia às gravações do programa Gordo a Go Go achou que aquilo era parte de um roteiro combinado. Dado abriu a mala e retirou um machado, uma corrente e um porrete. Ele colocou os objetos sobre a mesa e acusou o apresentador de ser um traidor do movimento. O que se seguiu foi uma das brigas mais famosas da história da televisão brasileira, com mesas viradas e seguranças entrando no palco para evitar o pior. Aquele momento foi o marco zero de uma sequência de episódios que transformariam o galã da Malhação em uma figura central das páginas policiais por duas décadas.

Muitas pessoas lembram do vídeo granulado que circulou no início da internet, mas poucos sabem que aquele comportamento não foi um fato isolado. Dado Dolabella era o herdeiro de uma linhagem nobre do entretenimento nacional, sendo filho dos atores Carlos Eduardo Dolabella e Pepita Rodrigues. Ele tinha o caminho pavimentado para o estrelato máximo na Globo, mas escolheu uma rota de colisões sucessivas com a lei e com as mulheres que passaram por sua vida.

Dado Dolabella: os bastidores reais dos escândalos do passado

O que realmente aconteceu segundo os registros

A noite de 22 de outubro de 2008 na boate 00, na Gávea, Rio de Janeiro, mudou definitivamente a percepção do público sobre o ator. As câmeras de segurança registraram a discussão entre Dado e sua então noiva, a atriz Luana Piovani. Nas imagens que foram amplamente divulgadas pelo Jornal Nacional e pelo Fantástico na época, é possível ver o momento em que Luana é empurrada e cai no chão. A camareira Esmeralda de Souza Honório tentou intervir na briga e acabou sendo empurrada pelo ator. Esmeralda precisou imobilizar os dois braços com gesso após a queda.

Dado Dolabella: os bastidores reais dos escândalos do passado

A justiça fluminense agiu com base na recém-criada Lei Maria da Penha. Em 2010, o juiz da 1ª Vara de Violência Doméstica do Rio de Janeiro condenou Dado Dolabella a dois anos e nove meses de prisão em regime aberto por lesão corporal. Segundo o processo número 0331002,34.2008.8.19.0001, a agressão contra a camareira foi considerada grave. Houve um longo imbróglio jurídico nos anos seguintes. Em 2013, o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro chegou a anular a condenação sob o argumento de que namorados não estariam protegidos pela Lei Maria da Penha, mas o Superior Tribunal de Justiça reformou essa decisão em 2014, reafirmando que a lei se aplica a qualquer relação íntima de afeto.

O histórico de conflitos judiciais não parou por aí. Em fevereiro de 2018, o ator foi preso em São Paulo por uma dívida de pensão alimentícia que ultrapassava 190 mil reais. Ele passou sessenta dias na carceragem do 5º Distrito Policial, na Aclimação. Naquela ocasião, Dado declarou ao jornal Folha de S.Paulo que os valores pedidos estavam fora da sua realidade financeira, já que ele não possuía contrato fixo com nenhuma emissora desde a sua saída da Record. Ele também enfrentou acusações de injúria e dano por ter riscado a lataria do carro de uma ex-namorada em 2009, escrevendo insultos na pintura do veículo.

O que a cobertura da época errou ou ignorou

Nos anos 2000, as redações de entretenimento no Brasil tinham uma postura muito mais permissiva com o comportamento de seus galãs. Dado Dolabella era tratado pelas revistas de celebridades como o bad boy incompreendido, uma figura charmosa que apenas tinha o temperamento forte. Reportagens da revista Contigo e da Quem focavam na beleza do ator e em seus romances com mulheres famosas como Wanessa Camargo, Adriane Galisteu e Deborah Secco. A mídia ignorou sistematicamente os relatos de comportamento agressivo que já circulavam nos bastidores da Globo durante as gravações de Malhação e Senhora do Destino.

Dado Dolabella: os bastidores reais dos escândalos do passado

O erro da cobertura jornalística foi transformar a violência doméstica em um espetáculo de consumo rápido. Quando a Record escalou Dado para a primeira edição do reality show A Fazenda, em maio de 2009, o crime contra Luana Piovani e Esmeralda Honório tinha ocorrido há apenas sete meses. A emissora utilizou a imagem do agressor para gerar engajamento e o público brasileiro respondeu elegendo Dado como o grande campeão do programa. Ele recebeu o prêmio de um milhão de reais com 83% dos votos populares na final contra a atriz Danni Carlos.

A camareira Esmeralda nunca recebeu um pedido de desculpas público do homem que o país elegeu como herói meses depois.

A narrativa de redenção foi construída em cima de uma conveniência comercial. Enquanto Dado chorava ao cuidar das ovelhas e pregava o amor aos animais no horário nobre, a camareira agredida enfrentava dificuldades para trabalhar e Luana Piovani era alvo de piadas em programas de humor. A cobertura da época falhou ao não questionar a ética de premiar alguém que ainda respondia a processos graves de agressão na justiça comum. O entretenimento da época priorizou a audiência em detrimento da responsabilidade social, criando uma bolha de proteção em torno do ator que só estourou quando os processos judiciais se tornaram impossíveis de esconder.

Dado Dolabella: os bastidores reais dos escândalos do passado

O que sobrou depois que a tempestade passou

O patrimônio acumulado com o prêmio de A Fazenda e os altos salários da Record se dissipou em meio a batalhas judiciais e falta de novos convites de trabalho. Atualmente, Dado Dolabella tenta uma nova reinvenção através do veganismo. Ele afirma em suas redes sociais e em entrevistas ao portal UOL que a mudança radical na alimentação foi o que o salvou de si mesmo. Segundo ele, a dieta à base de plantas eliminou o excesso de testosterona e a agressividade que o acompanharam durante a juventude.

O relacionamento renovado com Wanessa Camargo, que se tornou público em 2022, trouxe o ator de volta ao topo dos mecanismos de busca. O público agora se divide entre os que acreditam em sua evolução espiritual e os que utilizam as redes sociais para relembrar as vítimas do passado. O legado de Dado Dolabella no entretenimento brasileiro é uma mancha que as reprises de novelas não conseguem apagar. Ele é o exemplo real de como a fama pode proteger um indivíduo por muito tempo, mas o peso dos registros documentados acaba cobrando a conta na maturidade.

Hoje, ele vive de parcerias com marcas de produtos naturais e de participações em eventos ligados ao ativismo animal. A carreira de ator na televisão aberta parece ser um capítulo encerrado, já que as emissoras evitam associar suas marcas a figuras com histórico de condenações pela Lei Maria da Penha. O que ficou foi a história de um homem que teve todas as oportunidades de ser o maior nome da sua geração e terminou como o símbolo de uma era da televisão que não volta mais.

A tranquilidade aparente das fotos atuais no mato não apaga o barulho do empurrão na boate carioca.

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