Piadas cortadas do especial de Kevin Hart na Netflix revelam o que poderia ter sido
O especial “The Roast of Kevin Hart” na Netflix entregou um show de piadas ácidas, mas o que foi ao ar é apenas uma fração do material que os roteiristas prepararam. De acordo com a roteirista Madison Sinclair, que trabalhou no especial, diversas tiradas afiadas sobre o próprio homenageado, Kevin Hart, e outros convidados acabaram cortadas da versão final. Essas piadas revelam um humor ainda mais ousado que, se incluído, poderia ter intensificado ainda mais o clima de “massacre cômico” que marcou a noite.
As piadas não utilizadas abordavam desde a carreira de Hart até aspectos mais pessoais de sua vida, incluindo comentários sobre seu casamento e a forma como ele lida com controvérsias. A decisão de cortar certos momentos, embora compreensível em termos de edição para um especial de TV, oferece um vislumbre fascinante do potencial humorístico que foi deixado de lado, levantando a questão sobre o que define o limite do humor em eventos desse tipo.
Abaixo, detalhamos algumas das piadas que não chegaram a ser exibidas, oferecendo um contexto sobre o tipo de humor que quase fez parte do “The Roast of Kevin Hart”, conforme relatado por Sinclair em entrevista à Variety. O material cortado demonstra a disposição dos comediantes em explorar temas delicados, mesmo que nem tudo resulte na edição final transmitida ao público.
O que aconteceu: O humor que ficou de fora
Uma das piadas cortadas que mais chamam a atenção toca em um ponto sensível: a ausência de acusações de assédio contra Kevin Hart em meio ao movimento #MeToo. A tirada era: “Kevin é um dos poucos comediantes sem uma única acusação. Quando ele soube do movimento #MeToo, ficou chocado. Ele pensou, ‘as pessoas dizem não para coisas?!'” Essa piada, embora ousada, não chegou a ser dita, possivelmente pela sutileza com que abordava um tema complexo.
Outra comparação inusitada feita por Sinclair foi sobre a presença de Hart em projetos de Natal, comparando-o ao “Elf on the Shelf” (o boneco “Duende na Prateleira”), um item popular nos EUA. A piada dizia: “Kevin, muito obrigado por estar aqui hoje. Sei que você tem uma agenda lotada com stand-up… filmes… sentar naquela prateleira todo Natal.” Essa brincadeira, aparentemente leve, também foi deixada de fora.
As piadas sobre as infidelidades de Hart, especialmente durante a gravidez de sua esposa Eniko em 2017, foram um tema recorrente, mas algumas das mais ácidas foram cortadas. Uma delas criticava sua habilidade como adúltero: “Kevin, você é tão talentoso – mas você é o pior traidor. Com o seu porte físico, eu assumi que você seria melhor em se esconder”.
Uma piada mais direta sobre a mesma questão usou o restaurante de Hart como alvo: “Kevin, por que você estava se encontrando com mulheres em carros? Se você queria trair e se safar, deveria ter ido a um lugar desolado, uma terra de ninguém, um lugar que ninguém jamais iria por qualquer meio necessário… como o Hart House na La Brea.” A referência ao Hart House, sua rede de fast-food vegana que fechou em 2024, adicionava uma camada extra de humor específico.
A lista de piadas cortadas também incluía uma que brincava com as plataformas de streaming onde Hart apareceu, como Quibi e Tubi, e as associações negativas que poderiam vir daí: “Kevin Hart está sempre nas piores plataformas: Quibi, Tubi, aquelas que ele liga quando discute com a esposa.”
O especial também reservava piadas cortadas para os outros participantes. Chelsea Handler, por exemplo, seria alvo de uma tirada que mencionava seu longo tempo na E! e seu antigo talk show. Tony Hinchcliffe, por sua vez, seria comparado a Melania Trump, com a piada: “Tony é como Melania: a única coisa relevante sobre ele é que ele abriu para Trump uma vez.” Outra piada sobre Hinchcliffe brincava com sua placa de carro “iRoast”, sugerindo que todos esperam que ele cause problemas ao volante.
Shane Gillis, o anfitrião, também seria alvo de uma piada sobre seu consumo de álcool: “Shane desmoronou durante o Festival de Comédia de Riade porque ele tem integridade… e não consegue ficar 48 horas sem beber.”
O contexto: O limite do humor em um “roast”
“The Roast of Kevin Hart” faz parte de uma tradição do humor americano onde amigos e colegas se reúnem para zombar publicamente de uma pessoa, geralmente uma celebridade. O objetivo é exagerar falhas, controvérsias e características pessoais de forma cômica, testando os limites da tolerância e do bom humor. No caso de Kevin Hart, o especial abordou sua altura, seu casamento, sua carreira e até mesmo a recente polêmica envolvendo seu divórcio e infidelidade.
A inclusão dessas piadas cortadas levanta um debate sobre o que constitui um humor aceitável em um “roast”. Enquanto a natureza do evento convida a uma abordagem sem censura, a linha entre o engraçado e o ofensivo pode ser tênue. A decisão de cortar certas piadas pode ter sido motivada por um desejo de manter um certo nível de respeito, evitar repercussões negativas desnecessárias ou simplesmente para otimizar o fluxo e o impacto do especial para o público geral.
A carreira de Kevin Hart é marcada por um sucesso estrondoso no stand-up e no cinema, mas também por momentos de escrutínio público, como as acusações de homofobia em piadas antigas e o escândalo de traição. Um “roast” é o palco perfeito para revisitar esses momentos sob a ótica do humor, mas a forma como isso é feito pode definir a recepção do público e a imagem do homenageado e dos participantes.
A repercussão: O que foi ao ar
O que chegou ao público na Netflix incluiu piadas sobre a altura de Hart, seu casamento, sua carreira e outras esferas de sua vida. Convidados como Shane Gillis, Chelsea Handler, Tony Hinchcliffe, Sheryl Underwood, Teyana Taylor, Dwayne “The Rock” Johnson e Pete Davidson não pouparam o comediante. Uma participação surpresa de Tom Brady, que zombou do caso extraconjugal de Hart em retaliação a piadas anteriores, também gerou comentários.
Além de Hart, os próprios participantes foram alvo de tiradas sobre temas como Jeffrey Epstein, Kanye West ser um “nazista” e as festas de Sean “Diddy” Combs. Essa dinâmica de “ataques mútuos” é comum em roasts e adiciona uma camada extra de entretenimento, mostrando que ninguém está totalmente imune às piadas.
O que isso revela sobre o humor de celebridades
As piadas cortadas do “The Roast of Kevin Hart” nos mostram que, mesmo em um especial projetado para ser o mais ácido possível, existe um processo de curadoria e seleção. A decisão de quais piadas entram e quais saem pode refletir não apenas o que os roteiristas consideram mais engraçado, mas também o que eles acreditam ser apropriado ou estrategicamente vantajoso para a imagem do especial e dos envolvidos. Isso nos faz pensar: até onde o humor das celebridades pode ir sem cruzar a linha do aceitável? E quem define essa linha?
