Cássia Kis hoje: os bastidores do fim de uma era no Projac

Cássia Kis hoje: os bastidores do fim de uma era no Projac

Outubro de 2022. Cássia Kis aparece em uma transmissão ao vivo com a jornalista Leda Nagle e solta frases que paralisariam os bastidores da novela Travessia por meses. Ela falou sobre a “ameaça” da diversidade e atacou famílias formadas por pessoas do mesmo sexo. O clima no set de gravação, que já era tenso, virou um campo de batalha silencioso onde colegas de décadas evitavam olhar nos olhos da veterana.

Aquela não foi apenas uma declaração infeliz de uma atriz renomada. Foi o início de um isolamento sistemático dentro da emissora onde ela construiu sua história. A mulher que deu vida a Leila em Vale Tudo e a Maria Marruá em Pantanal estava testando os limites da sua própria imortalidade artística perante o alto comando da Globo.

Cássia Kis hoje: os bastidores do fim de uma era no Projac

O que realmente aconteceu segundo os registros

O departamento de Compliance da TV Globo nunca teve tanto trabalho com uma única estrela. Segundo reportagem da Folha de S.Paulo publicada em novembro de 2022, pelo menos quinze profissionais, entre atores e equipe técnica, registraram queixas formais contra a atriz. Os relatos descreviam uma rotina de assédio moral e tentativas de conversão religiosa dentro dos camarins. Cássia não estava apenas atuando: ela estava em uma missão.

A situação piorou quando os registros fotográficos e vídeos mostraram a atriz em manifestações diante do Comando Militar do Leste, no Rio de Janeiro, logo após as eleições de 2022. Ela foi vista rezando de joelhos e incentivando atos que contestavam o resultado das urnas. De acordo com o portal G1 em notícias da época, a Globo emitiu uma nota afirmando que não comentava questões políticas de seus colaboradores, mas que repudiava qualquer forma de discriminação.

Nos bastidores, o clima era de boicote. Atores como José de Abreu entraram com representações na justiça contra ela. Circulavam informações de que parte do elenco de Travessia se recusava a ensaiar cenas que não fossem estritamente necessárias para o cronograma. Cássia Kis virou uma ilha dentro do Projac, cercada por um respeito formal pela sua trajetória, mas totalmente desconectada do ambiente coletivo que o audiovisual exige.

Cássia Kis hoje: os bastidores do fim de uma era no Projac

O que a cobertura da época errou ou ignorou

A maioria dos portais de fofoca focou apenas no lado político da polêmica, mas é que o buraco era muito mais fundo. O que a cobertura padrão ignorou foi o processo de mudança comportamental que Cássia vinha sofrendo anos antes de 2022. Ela se tornou adepta de um catolicismo ultraconservador que ditava cada passo de sua rotina. Amigos de longa data relataram que ela passou a usar grupos de WhatsApp de produções da Globo para enviar conteúdos de cunho ideológico e religioso de forma insistente.

A imprensa tratou o caso como um surto isolado, mas nos corredores da emissora o que se via era um método. Ela interrompia sessões de maquiagem para pregar. Ela questionava a vida pessoal de figurinistas. Esse comportamento beirava o intolerável muito antes de ela sentar na frente de Leda Nagle para a live fatídica. A Globo, por sua vez, tentou abafar o caso para não prejudicar a audiência de Travessia, que já patinava nos 23 pontos, uma marca baixa para o horário nobre.

Outro ponto que ninguém contou foi o esforço da direção para diminuir o tempo de tela da atriz sem que isso parecesse uma punição pública. Roteiros foram levemente alterados para que Cidália, sua personagem, tivesse menos interações desnecessárias com o núcleo jovem da trama. A emissora estava em uma sinuca de bico: não dava pra demitir uma atriz daquele tamanho no meio de uma novela, mas não dava pra fingir que nada estava acontecendo.

O silêncio nos estúdios da Globo foi o preço que ela pagou pela própria voz.

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O que sobrou depois que a tempestade passou

O contrato de Cássia Kis com a TV Globo não foi renovado em abril de 2024, após mais de quarenta anos de casa. A notícia, confirmada por diversos veículos de entretenimento, marcou o fim de uma era. A emissora, que está em um processo agressivo de corte de gastos e contratos por obra, não viu mais espaço para uma figura que trazia tanto desgaste para a marca. O legado de Cássia agora é uma disputa entre o seu talento absurdo e o rastro de polêmicas que ela deixou nos últimos anos.

Hoje ela vive em uma espécie de exílio voluntário. Não é vista em festas de encerramento, não participa de podcasts de colegas e sua presença em futuros projetos da casa é nula. A veterana que já foi o pilar das maiores obras de Glória Perez e Aguinaldo Silva agora é uma memória complexa. Ela permanece firme em suas convicções, mas o mercado parece ter fechado as portas para quem confunde liberdade de expressão com intolerância no ambiente de trabalho.

O que sobrou foi uma atriz gigante sem palco. O Projac mudou, as regras de convivência mudaram e Cássia Kis parece ter escolhido ficar em um tempo que só existe na sua cabeça. Ela não é uma atriz esquecida, é uma atriz evitada. E esse é o destino mais amargo para quem dedicou a vida inteira a ser vista.

Sua história agora serve como um lembrete de que, no mundo das celebridades, o crachá de mestre não protege ninguém do isolamento.

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