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Jô Soares: a vida real e o legado do mestre da entrevista

16 de dezembro de 2016 marcou o fim de um ritual que durou quase três décadas na televisão brasileira. Naquela noite, Jô Soares fechou a última edição de seu programa na Globo com um agradecimento emocionado, mas sem o tom de despedida definitiva que o público esperava. Ele saiu do estúdio cercado por sua equipe técnica, os músicos do Sexteto e uma plateia que o aplaudia de pé, carregando a mesma curiosidade que o acompanhava desde os tempos em que estudava em um internato na Suíça. Seis anos depois, em 5 de agosto de 2022, o silêncio no apartamento de Higienópolis confirmou que o sofá mais famoso do país não teria mais dono.

O que a fama escondia sobre quem ele realmente era

Por trás das gravatas borboleta e do humor refinado, existia um homem que lutava contra uma solidão que poucos conseguiam acessar. Filho de um diplomata e educado na Europa, Jô cresceu como um cidadão do mundo, poliglota e culto, o que muitas vezes o fazia se sentir um estrangeiro dentro do próprio país. Ele não era apenas o entrevistador que ria das histórias dos convidados, mas um intelectual rigoroso que lia até quatro livros por semana e não suportava a mediocridade intelectual.

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A vida pessoal de Jô foi marcada por uma blindagem que ele só rompeu em momentos de dor extrema. A morte de seu único filho, Rafael Soares, em 2014, aos 50 anos, foi o ponto mais baixo dessa história. Rafael tinha autismo de alto nível, e a relação entre os dois era protegida por um muro de privacidade que a imprensa sensacionalista da época raramente conseguia transpor. De acordo com relatos de amigos próximos à revista Veja em agosto de 2022, Jô nunca se recuperou totalmente dessa perda, embora tenha mantido a elegância e o profissionalismo diante das câmeras até o fim do contrato com a emissora.

A relação com sua ex-mulher, Flavia Pedras, também fugia de qualquer padrão convencional de celebridade. Mesmo após a separação, os dois continuaram vivendo em apartamentos vizinhos, mantendo uma amizade que Jô descrevia como o porto seguro de sua vida. Em entrevista ao programa Provocações da TV Cultura, anos antes de partir, ele afirmou que o amor tinha se transformado em algo muito mais sólido do que um casamento. Flavia se tornou sua herdeira principal e a pessoa que gerenciava seus cuidados de saúde e sua vasta biblioteca de mais de cinco mil exemplares.

Jô Soares morreu como viveu: cercado de cultura e protegido pelo afeto de quem escolheu para ser sua família real.

Essa escolha por um círculo íntimo pequeno e fiel era uma resposta ao barulho constante da fama. Quem conviveu com ele nos bastidores afirma que Jô era um homem de hábitos rígidos, que não gostava de festas de celebridades e preferia a companhia de seus cães e de seus livros. Ele era um erudito que usava o humor como ferramenta de defesa, alguém que sabia tudo sobre ópera e jazz, mas que não se importava em ser visto como o gordo que fazia piada na televisão se isso garantisse a conexão com o povo.

O que ela construiu enquanto estava aqui

A construção do talk show moderno no Brasil passa obrigatoriamente pela coragem de Jô Soares ao trocar a estabilidade da Globo pelo desafio no SBT em 1988. Silvio Santos deu a ele o cheque em branco e o horário que ele desejava para criar o Jô Soares Onze e Meia. Naquela época, o formato de entrevista de fim de noite era inexistente no país, e o mercado publicitário duvidava que o brasileiro ficaria acordado para ouvir conversas que misturavam política, ciência e entretenimento.

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Os números provaram que o mercado estava errado. Durante os onze anos em que esteve no SBT, Jô realizou cerca de 6 mil entrevistas, transformando o programa em uma parada obrigatória para qualquer pessoa que tivesse algo relevante a dizer ao país. Ele não entrevistava apenas estrelas internacionais como Mikhail Gorbachev ou celebridades do momento. Ele dava o mesmo tempo de tela a um cientista obscuro, a um taxista com uma história curiosa ou a um escritor estreante.

O retorno para a Globo em 2000 consolidou o Programa do Jô como a maior vitrine da cultura brasileira. Segundo dados divulgados pela emissora logo após seu falecimento, Jô somou mais de 15 mil entrevistas ao longo de sua carreira na televisão. Ele foi o responsável por introduzir figuras que depois se tornaram centrais na mídia, como os músicos de seu Sexteto, que ganharam personalidade própria e se tornaram personagens do show.

Além da televisão, Jô construiu uma obra literária que o colocou nas listas de mais vendidos. O Xangô de Baker Street, lançado em 1995, vendeu mais de 600 mil exemplares apenas no Brasil e foi traduzido para dezenas de idiomas. Ele provou que um artista popular poderia ser levado a sério como romancista sem precisar abandonar o humor. Ele era um criador de tipos, de bordões e de um estilo de conversa que humanizava o entrevistado, tirando-o da zona de conforto das respostas ensaiadas por assessorias.

O que ficou depois que as câmeras se apagaram

O legado de Jô Soares não está apenas nas fitas de arquivo da televisão, mas na forma como ele decidiu distribuir o que acumulou em vida. De acordo com informações do cartório de notas onde seu testamento foi registrado, citadas em reportagem do portal Extra em 2023, Jô destinou parte de sua herança milionária para os funcionários que o acompanharam por décadas. Ele deixou porcentagens de seus bens para motoristas, cozinheiros e assistentes pessoais, um gesto que reforçou a imagem de generosidade que seus colaboradores sempre defenderam nos bastidores.

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A biblioteca de Jô Soares, um dos acervos privados mais importantes do país, tornou-se um símbolo de sua resistência cultural. Ele não colecionava livros apenas pelo objeto, mas pela busca constante por conhecimento que o mantinha jovem de espírito. Esse apetite intelectual é o que faz mais falta na televisão atual, que muitas vezes troca a profundidade pelo engajamento rápido. Jô ensinou ao espectador que era possível ser inteligente e popular ao mesmo tempo, sem precisar falar difícil ou excluir quem não teve acesso à educação formal.

Existe um vácuo no horário nobre brasileiro que nenhum outro apresentador conseguiu preencher com a mesma mistura de ironia e acolhimento. O beijo do gordo tornou-se uma expressão do vocabulário nacional, uma marca registrada de alguém que sabia encerrar o dia com leveza, mesmo quando as notícias do país eram pesadas. Ele deixou uma escola de entrevistadores que tentam, sem o mesmo sucesso, equilibrar o brilho do entrevistador com o protagonismo do entrevistado.

Até hoje, as reprises de suas grandes entrevistas no canal Viva ou no Globoplay continuam sendo fonte de consulta para quem quer entender quem eram os protagonistas do Brasil entre o fim do século 20 e o início do 21. Jô Soares não apenas registrou a história, ele a editou com o olhar de um diretor de teatro que sabia exatamente onde estava a alma de cada personagem. O que ficou foi a certeza de que a televisão brasileira perdeu sua bússola de elegância e sua voz mais polifônica.

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