Ana Paula Arósio hoje: a vida real longe das câmeras
Outubro de 2010 em Florianópolis. A equipe da novela Insensato Coração esperava pela protagonista no hotel para começar as gravações daquela que seria a nova grande aposta da Globo. Ana Paula Arósio simplesmente não desceu para o saguão. Aquele foi o exato segundo em que a maior estrela da televisão brasileira decidiu que não queria mais ser vista por ninguém.
Dennis Carvalho, o diretor da trama, não guardou mágoas em silêncio. Em entrevista para a revista Veja pouco tempo depois, ele classificou a atitude da atriz como antiprofissional e disse que ela não deu explicações concretas para o sumiço. O que o diretor e o público demoraram para entender é que aquela não era uma crise passageira ou um capricho de estrela. Ana Paula estava encerrando um contrato com a fama que já não fazia mais sentido para ela.

O custo invisível de ser a namoradinha do Brasil
A imagem de Ana Paula Arósio sempre foi associada a uma perfeição quase surreal. Desde o comercial da marca de absorventes Always, onde ela aparecia com o rosto limpo e olhos azuis hipnotizantes, o Brasil se apaixonou. Mas essa paixão coletiva cobrou um preço alto demais. Muita gente esquece ou prefere não lembrar que, em novembro de 1996, a atriz viveu um trauma que paralisou o país. O noivo dela, o empresário Luiz Carlos Leonardo Tjurs, tirou a própria vida na frente dela após uma discussão motivada por ciúmes.
Relatos da época dizem que Ana Paula ficou em choque profundo. Mesmo assim, a engrenagem do entretenimento não parou. Dois anos depois, ela estava brilhando como a protagonista de Hilda Furacão. Foi um sucesso estrondoso que consolidou sua posição no primeiro escalão da Globo. Ela emendou um trabalho no outro: Terra Nostra em 1999, Os Maias em 2001 e Esperança em 2002. A atriz trabalhava em um ritmo industrial enquanto lidava com o luto e a pressão de ser o rosto mais bonito do país.
Quem convivia com ela nos bastidores sabia que o cansaço era real. Ana Paula nunca foi de frequentar festas badaladas ou alimentar colunas de fofoca por prazer. Ela parecia estar sempre buscando uma rota de fuga. Quando se casou com o arquiteto e cavaleiro Henrique Plombon Pinheiro, em julho de 2010, o plano de retirada começou a ganhar forma de verdade. Eles queriam uma vida que fizesse sentido fora do Projac.

A fuga estratégica para o interior paulista e o exterior
Depois do abandono de Insensato Coração, Ana Paula se isolou em sua fazenda em Santa Rita do Passa Quatro, no interior de São Paulo. Lá, ela trocou o figurino de época pelas roupas de montaria. Ela se tornou criadora de cavalos da raça Mangalarga Marchador e passou a competir em eventos de hipismo. Moradores da cidade contavam que era comum ver a atriz fazendo compras no supermercado local de cara lavada, sem seguranças e sem qualquer sinal da diva que parava o trânsito no Rio de Janeiro.
Ana Paula Arósio escolheu o silêncio quando todo mundo queria que ela gritasse.
Mas o Brasil ainda era perto demais. A curiosidade constante dos paparazzi e os drones que tentavam flagrar sua rotina no campo fizeram com que o casal buscasse um isolamento ainda maior. Em 2015, eles se mudaram para uma zona rural no sudoeste da Inglaterra, perto de Oxford. A escolha não foi aleatória. A região é conhecida pela tradição no hipismo e oferece a privacidade que nenhum condomínio de luxo no Brasil poderia garantir.
Nesse período, ela fez uma única concessão ao cinema. Atuou no filme A Floresta que se Move, lançado em 2015. O diretor Vinícius Coimbra contou que precisou de paciência para convencê-la. Durante as entrevistas de divulgação, Ana Paula foi econômica nas palavras. Ela deixou claro que o cinema era um hobby bissexto, não um retorno planejado para a televisão. Ela parecia feliz em ser apenas a esposa de um cavaleiro olímpico e uma criadora de animais dedicada.
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A rotina entre cavalos e o comercial de 8 milhões
Atualmente, Ana Paula Arósio leva uma vida que muitos considerariam simples, apesar da fortuna acumulada em anos de contratos publicitários pesados. Ela cuida pessoalmente da horta, ajuda na lida com os cavalos e não mantém redes sociais. O contato com o público brasileiro só acontece em doses homeopáticas e geralmente envolve muito dinheiro. Em agosto de 2020, ela reapareceu em um comercial do banco Santander que parou o intervalo do Jornal Nacional.
A aparição de apenas alguns segundos rendeu um cachê estimado em 8 milhões de reais, segundo informações publicadas pela revista Veja e pelo portal Notícias da TV. No vídeo, ela brincava com o próprio sumiço e se apresentava como a Ana Paula que todo mundo conhecia. Depois disso, ela voltou para a Inglaterra e para o seu anonimato voluntário. Em 2024, novas fotos da atriz circularam na internet em uma campanha de uma marca de suplementos, mostrando Ana Paula com os cabelos curtos e uma fisionomia que aceita o passar do tempo sem os excessos de intervenções estéticas comuns na televisão.
Ela não parece sentir falta dos holofotes. O legado que deixou é de uma atriz técnica e magnética, mas sua verdadeira obra prima foi ter conseguido dizer não para um sistema que raramente aceita o abandono. Ana Paula provou que é possível ser esquecida de propósito. Ela hoje é uma empresária do agronegócio e uma entusiasta do hipismo que ganha a vida longe dos roteiros de novelas. Onde ela está hoje é exatamente onde ela sempre quis estar: em um lugar onde o azul dos seus olhos não é notícia, apenas parte da paisagem.
Diferente de outros colegas que tentam desesperadamente voltar ao topo, ela encontrou paz na ausência. O silêncio dela é, na verdade, sua maior conquista pessoal.

