Buffy Sainte-Marie tem título universitário revogado após alegações de identidade indígena

A renomada cantora folk e vencedora do Oscar, Buffy Sainte-Marie, enfrenta um novo capítulo em sua carreira com a revogação de um título honorífico pela Universidade de Toronto. A instituição anunciou na quarta-feira a decisão de retirar o grau de Doutora em Leis Honoris Causa concedido à artista em 2019, em reconhecimento ao seu trabalho nas artes, música e ativismo social. A universidade justificou a medida após um processo de revisão confidencial, aprovado pelo conselho diretor da instituição, que se encerrou com a conclusão de que a retirada era necessária.

Essa decisão surge dois anos e meio após uma investigação do programa “The Fifth Estate”, da CBC, que levantou questionamentos sobre as alegações de identidade indígena de Sainte-Marie. O relatório, publicado em outubro de 2023, citou uma certidão de nascimento indicando que a cantora nasceu em Massachusetts, filha de pais ítalo-americanos, o que contrariava décadas de biografias e matérias de imprensa que a descreviam como descendente de povos Algonquin, Mi’kmaq e, posteriormente, Cree.

A própria artista já havia abordado o tema no ano passado, declarando em entrevista à Canadian Press ser cidadã americana, com passaporte dos EUA, e que foi adotada ainda jovem por uma família Cree na província de Saskatchewan, no Canadá. Sainte-Marie ganhou notoriedade na década de 1960, com músicas frequentemente ligadas à sua suposta herança Cree. Ela também participou do programa infantil “Vila Sésamo” e, em 1983, conquistou um Oscar de Melhor Canção Original pela composição de “Up Where We Belong”, trilha sonora do filme “A Força do Destino”, tornando-se a primeira pessoa indígena a receber tal honraria.

Em agosto de 2023, Buffy Sainte-Marie anunciou sua aposentadoria dos palcos, citando motivos de saúde e os desafios físicos inerentes às turnês. A Universidade de Toronto informou que, desde a criação de seu comitê de revisão de reconhecimentos em 2023, apenas dois títulos honoríficos foram revogados, sendo o outro pertencente a Duncan Campbell Scott.

O que aconteceu
A Universidade de Toronto confirmou nesta quarta-feira a revogação do título de Doutora em Leis Honoris Causa concedido a Buffy Sainte-Marie em 2019. A decisão foi comunicada após um processo de revisão interna, aprovado pelo conselho diretor da instituição. O título foi concedido em reconhecimento às contribuições da cantora para a música, as artes e a defesa de causas sociais.

A investigação do programa “The Fifth Estate”, da CBC, veiculada em outubro de 2023, foi o estopim para a análise da universidade. A reportagem apresentou uma certidão de nascimento que indicava o nascimento de Sainte-Marie em Massachusetts, de pais ítalo-americanos, contrariando a narrativa de sua ancestralidade indígena que era amplamente divulgada.

Em resposta às alegações, Sainte-Marie já havia declarado ser cidadã americana e que foi adotada por uma família Cree. A artista, que se tornou uma figura proeminente na música folk dos anos 60, é conhecida por suas canções que frequentemente celebravam sua herança indígena. Sua carreira inclui participações em “Vila Sésamo” e o Oscar de Melhor Canção Original.

O contexto
A revogação do título pela Universidade de Toronto adiciona mais um capítulo à crescente controvérsia em torno da identidade de Buffy Sainte-Marie. A decisão da universidade segue uma linha de questionamentos sobre suas origens, que ganharam força após a investigação da CBC. A universidade, ao realizar sua revisão, buscou apurar a veracidade das informações apresentadas e alinhar suas honrarias aos critérios de integridade acadêmica e representatividade.

A situação levanta debates importantes sobre a representação indígena na mídia e nas artes, e como as instituições lidam com alegações de falsidade em narrativas pessoais de figuras públicas. O caso também ressalta a importância da verificação de fatos e da responsabilidade social por parte de artistas e instituições culturais.

Essa não é a primeira vez que Sainte-Marie tem um título honorário questionado. No início deste ano, a Dalhousie University também retirou um diploma similar após a manifestação de um estudante Mi’kmaq. Ao longo de sua carreira, a cantora recebeu cerca de 15 doutorados honoríficos de diversas instituições, incluindo a Universidade da Colúmbia Britânica e a Universidade de Regina, que agora também podem enfrentar pressões para reavaliar essas honrarias.

Em suas declarações anteriores sobre as alegações, Sainte-Marie classificou o relatório da CBC como “traumatizante e injusto”, acusando o documento de conter “erros e omissões”. Ela também mencionou ter sido vítima de abuso sexual por parte de seu irmão, cujas alegações foram destacadas na investigação. A artista expressou sua dor ao saber que sua família cresceu com medo e acreditando em mentiras, devido a uma carta que ela enviou para se proteger de abusos.

A repercussão
A decisão da Universidade de Toronto foi vista por alguns acadêmicos como uma consequência justa. Audra Simpson, professora da Universidade de Columbia e membro da nação Kanien’kehá:ka, classificou a medida como “atrasada” e declarou que “uma consequência justa para ambos, ele e ela, que agiram sob os imperativos do colonialismo colonial de diferentes maneiras e em diferentes períodos de tempo”. Simpson expressou a esperança de que a decisão envie uma mensagem importante.

A revogação do título pela Universidade de Toronto ocorre meses após a Dalhousie University ter agido de forma semelhante em janeiro, após questionamentos levantados por um estudante Mi’kmaq. Essas ações colocam sob escrutínio outras honrarias acadêmicas concedidas a Sainte-Marie ao longo dos anos, totalizando cerca de 15 doutorados honoríficos de instituições como a Universidade da Colúmbia Britânica, a Universidade de Regina e a Universidade Carleton.

O encerramento comentado
A revogação do título honorário de Buffy Sainte-Marie pela Universidade de Toronto levanta questões complexas sobre identidade, representatividade e a responsabilidade de figuras públicas. Enquanto a cantora defende sua narrativa pessoal, as instituições acadêmicas buscam manter a integridade de suas honrarias. Este caso nos faz refletir sobre como a sociedade lida com narrativas de origens e a importância da verificação de fatos, especialmente quando envolvem comunidades historicamente marginalizadas. O que essa situação revela sobre a interseção entre arte, ativismo e a busca por reconhecimento autêntico?

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