Onde está Xuxa hoje: o que aconteceu com a Rainha dos Baixinhos
Dezembro de 1992. Xuxa Meneghel entrava na nave prateada pela última vez no Xou da Xuxa sob uma chuva de papel picado e o choro descontrolado de crianças que viam o fim de uma era. Aquele rito de passagem marcou o ápice de um poder que nenhuma outra mulher na história da televisão brasileira conseguiu replicar. Nos bastidores, o clima era de exaustão e a certeza de que o mito da Rainha dos Baixinhos tinha ficado grande demais para o corpo da mulher de 29 anos que o carregava.
A televisão brasileira nunca mais veria um fenômeno de audiência e consumo tão verticalizado quanto aquele que parava o país nas manhãs da Globo. O que se seguiu nos trinta anos seguintes foi um processo lento de desconstrução de uma imagem que parecia intocável, até que a apresentadora se visse forçada a trocar o pedestal de semideusa pela realidade dos números de audiência que já não batiam mais o primeiro lugar. O sumiço da Xuxa que o Brasil aprendeu a venerar não foi repentino, mas sim uma transição para uma mulher que muitos fãs ainda têm dificuldade de reconhecer.
Quem era antes de desaparecer das telas
Para entender o tamanho da ausência da Xuxa de antigamente, é preciso lembrar o que significava ser a maior estrela da América Latina entre 1986 e 1992. Ela não era apenas uma apresentadora, mas uma engrenagem econômica que faturava cerca de 100 milhões de dólares por ano, segundo estimativa publicada pela revista Forbes em 1991. O programa alcançava picos de 54 pontos de audiência, um número que hoje parece ficção científica para qualquer emissora aberta.
Xuxa era o centro de um império que vendia desde sandálias de plástico até milhões de cópias de discos como o Xou da Xuxa 3, que entrou para o Guinness World Records com 3,2 milhões de unidades comercializadas. O controle sobre sua vida era absoluto e exercido por Marlene Mattos, a diretora que transformou a jovem modelo em um produto impecável. Naquela época, o público não via Xuxa em padarias, shoppings ou eventos sociais comuns. Ela vivia em uma bolha de segurança e isolamento que alimentava o mistério e a sensação de que ela realmente vinha de outro planeta em uma nave espacial.
Essa figura mítica começou a dar sinais de desgaste no final dos anos noventa com o Planeta Xuxa, quando ela tentou migrar para o público adolescente e adulto. Embora o programa tenha sido um sucesso de crítica e público, o incêndio no estúdio em janeiro de 2001, que deixou 26 feridos e destruiu o cenário, marcou o início de uma fase sombria. A partir dali, a relação com Marlene Mattos azedou definitivamente em 2002 e a apresentadora se viu, pela primeira vez, obrigada a tomar as rédeas da própria carreira sem a proteção da mentora que a moldou.
O que levou ao afastamento e o que a versão oficial não contou
A saída oficial da Globo em 2015, após quase trinta anos de casa, foi o golpe de misericórdia na imagem da Rainha. O que a emissora tratou como um encerramento amigável de ciclo foi, na verdade, uma falta de espaço para uma apresentadora que já não falava com as massas como antes. O programa TV Xuxa, que ocupava as tardes de sábado, sofria para vencer a concorrência e a Globo não demonstrava interesse em investir em um novo formato que atendesse aos desejos de Xuxa de falar para adultos de forma livre.
A ida para a Record TV em março de 2015 foi vendida como a maior contratação da história da emissora, com um salário especulado em 1 milhão de reais mensais. No entanto, o choque de realidade foi brutal. O programa Xuxa Meneghel, inspirado no talk show de Ellen DeGeneres, não entregou os números esperados e a apresentadora passou a ser criticada pela falta de naturalidade no novo palco. Foi nesse período que ela começou a desaparecer do imaginário popular como a figura dominante da TV. O público que esperava a nave viu uma mulher tentando se encaixar em uma estrutura que ela não dominava.
A Rainha finalmente matou o personagem para que a mulher pudesse sobreviver.
Nos bastidores, o que poucos comentavam era o cansaço da apresentadora com a obrigação de ser jovem e perfeita. A versão oficial falava em novos desafios e liberdade artística, mas o fato é que o mercado publicitário começou a olhar para Xuxa como um nome do passado. Sem a estrutura da Globo para blindar sua imagem, ela se tornou alvo constante de críticas nas redes sociais por seu envelhecimento natural, algo que ela passou a rebater com firmeza, mas que a afastou ainda mais daquela lembrança nostálgica dos anos oitenta.
Como está vivendo hoje
Atualmente, Xuxa Meneghel vive uma fase que ela mesma define como de total liberdade, longe da ditadura da audiência diária. Em 2021, ela vendeu sua icônica mansão na Barra da Tijuca por cerca de 45 milhões de reais para a cantora Karinah, um movimento que simbolizou o desapego de uma vida cercada por luxo excessivo e sem uso. Hoje ela reside em uma casa menor, adequada ao seu estilo de vida vegano e ao lado de seu companheiro, o ator Junno Andrade, com quem mantém um relacionamento desde 2012.
O retorno triunfal para o ecossistema da Globo aconteceu em 2023 com o lançamento de Xuxa, o Documentário, no Globoplay. A produção dirigida por Pedro Bial foi o momento em que ela decidiu colocar os pontos nos is, encarando Marlene Mattos em uma entrevista que parou as redes sociais. Ali, o público entendeu que o sumiço das telas de TV aberta foi uma escolha por sanidade mental. Ela trocou o auditório lotado por projetos de streaming, livros infantis e a gestão de seus negócios, como a rede de depilação a laser Espaçolaser, que conta com mais de 800 unidades pelo Brasil e da qual ela é sócia e garota propaganda.
A mulher que hoje aparece em documentários e entrevistas não usa mais ombreiras ou chuquinhas no cabelo. Ela fala abertamente sobre política, direitos dos animais e a pressão estética que sofreu durante décadas. Xuxa não está mais sumida, ela apenas mudou de endereço e de propósito. Ela deixou de ser um produto para se tornar uma mulher dona de sua própria história, ciente de que o trono que ocupou por tanto tempo hoje é um museu que ela visita apenas quando tem vontade.
Ao observar Xuxa em 2026, percebe-se que ela sobreviveu ao próprio mito. O afastamento das grandes massas da televisão aberta foi o preço que ela pagou para deixar de ser uma propriedade do público e passar a ser, pela primeira vez em quarenta anos, apenas a Maria da Graça.

